Penny Dreadfuls, 1911 · page 10 of 15
As Ruinas de Pompeya (The Ruins of Pompeii) — page 10: what you’re looking at
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16 -—O que tenho eu que fazer? perguntou Harry confuso, porque essa historia nao lhe parecia muito segura. —Serads o meu padrinho! —Mas, senhor Holmes, eu conheco o box, e tam- bem aprendi n’estes ultimos tempos o jiu-jitsu, mas nao sei bater-me com sabre torto, —N§ao faz mal. Aprendi quando era novo e espe- ro ser tio forte n’isso como o marquez, Ndo tens mais nada a fazer senio péres te ao meu lado esquerdo com o sabre na mio, e estar com attencdo para que o patife italiano nio me metta sem mais nem menos o sabre na barriga. Isso nfo seria soluvel conforme as leis do duello. Em summa, nao lhe darei occasiao pa- ra isso. Tu sdé tens de fazer o teu papel de estatico e mais nada. Depois Holmes tirou uma mascara de velludo pre- to, d’uma mala e pél-a na cara. —O marquez nao me podia fazer melhor proposta, assim ao menos j& nio preciso de apresentar-me de- baixo d’uma mascarada qualquer. Vamos depressa, Harry, nao temos tempo a perder. Uma linda manba tinha se estendido sobre Na- poles. As_janellas do Castello Sant’Elmo resplandeciam ao brilho do sol matinal, e a ilha montanhosa do Cas- tello dell’Oro nadava n’um mar de purpura. O pico doirado da Mergelina saudava os dois homens, que se dirigiam no automovel para o hospicio S80 Genna- ro di Proveri. A estrada de Roma estava ainda de- serta. A’s seis menos cinco chegou Holmes que guiava 0 automovel, ao hospicio. Alguns metros distante desceu com Harry alguns degraus de pedra que conduziam a uma comprida ga- leria. As catacumbas, que datam da antiguidade, esto divididas 4 direita e 4 esquerda por tumulos e sao guarnecidas com toda a especie de pinturas No corredor principal, que terminava por tres es: cadas, esperava 9 marquez o seu adversario. Todos tinham mascaras pretas. Sherlock Holmes e Harry que tambem tinham os rostos tapados, approximaram-se do grupo. As catacumbas eram illuminadas por archotes que dois companheiros do marquez traziam, Um dos homens que figurava como juiz de campo poz-se entre os dois e disse: —Fazendo a minha obrigag4o, venho perguntar se os senhores se querem reconciliar. Os dois fizeram um signal negativo. O cavalheiro tirou entéo d’uma caixa dois sabres tortos, entregando um a cada adversario, O marquez de Caserta assim como Holmes tiuham tirado os casacos e camisas e collocaram-se em frente um do outro. Os padrinhos puzeram-se com as suas armas ao lado dos combatentes e o juiz de campo disse: Um,» ., dois..,... tres: .. Os sabres tiniram, cruzaram-se no ar e j4 nao se aram, As ruinas de Pompeia Nio era o primeiro duello que Holmes concluia em servigo da justica. Era um esgrimista distincto e nunca faltava auma occasido para por em pratica essa arte, Mas logo no primeiro ataqué poude constatar que tambem o mar- quez Caserta era um dos melhores esgrimistas que se podia encontrar, Esgremia tranquilamente, agilmente e com mao de mestre, fazendo todo o possivel para confundir o sen adversario. Mas no chegon a isso, O combate tinha durado j4 pouco mais ou menos dez minutos quando 0 marquez se preparou para dar um golpe perigoso. re Rapido como um raio, Holmez poz-se em parada, o sabre abateu-se e de repente a lamina que Holmes tinha na mio partiu-se. ae O golpe do seu adversario foi comtudo desviado a tempo. O juiz de campo nao fez nada para interromper 0 combate e o padrinho do marquez continuava immovel quando este se preparava para dar um novo golpe mortal ao seu inimigo indefeso, Sherlock Holmes fez um movimento para evitar o golpe mas no mesmo instante a lamina do seu fiel Harry recebia 0 golpe do marquez —Isso é uma accdo infame, gritou Harry Taxon, furioso e dispunha se a deitar-se elle mesmo sobre 0 co- varde adversario. Mas Holmes impediu-o, e entado o juiz de campo e o padrinho acharam occasiio de intervir. —Se os senhores estdo de accordo faz-se um in- tervallo de cinco minutos, disse elle. Como o duello ficou indeciso com os sabres proponho que termine 4 pistola. O marquez fez um signal affirmativo, vestiu a ca- saca e desappareceu num atalho. —Acceito tambem, disse Sherlock Holmes. O intervallo tinha acabado. O marquez appareceu outra vez e recebeu uma pistola da mao do juiz de campo, Depois recebeu tam- bem Holmes a sua arma. —Attencio, prompto! Uma... duas... —Espere! exclamou Sherlock Holmes Os senho- Tes esqueceram-se de carregar a minha pistola. Holmes entregou sorrindo a sua arma ao juiz do campo. N&o f:i possivel observar as caras que faziam 0s companheiros, porque todos traziam mascaras. —Isso é fatal, murmurou o juiz nao temos outra pistola. —Nao faz mal, respondeu Holmes. Metti por acaso uma pistola na algibeira, e tambem tive o cuidado de a carregar. —Dizendo isto, tirou da algibeira a pistola. Um silencio mortal seguiu as suas palavras. Ninguem se atreveu a contradizel-o. Os dois homens levantaram 0 brago, O marquez tinha, como parte offendida, o direito ao primeiro tiro, O juiz ordenon: —Uma, duas, tres! fogo! As ruinas de Pompeia —A mio do marquez baixou-se. Apontou cuida- dosamente. O tiro partiu, todos os olhos se dirigiram para Sherlock Holmes. Holmes recuou um passo e cambaleou. Algumas gottas de sangue tingiam-lhe o rosto, 0 medivo ja que- Tla approximar-se d’elle, quando Holmes de repente se endireitou outra vez. —Nio é nada de cuidado, disse elle sorrindo. Se- nhor juiz, faga favor de dar o signal. Ninguem ousou respirar. Depois do signal dado baixou-se o brago de Holmes. Apontou apenas um se- gundo, depois partiu o tiro. O marquez levantou os bragos ao ar, deu um giro sobre elle mesmo, depois um pulo e eaiu no chao. _ O medico correa em seu soccorro e arrancon 0 ca- saco do ferido. Uma bala no coragio, disse elle. A mascara caiu da cara do morto, Sherlock Hol- mes deitou lhe um olhar, e disse: —Mas este no é 0 marquez de Caserta. Lamento, meus senhores, terem-se prestado para esta intrugice. Um olhar para as caras aterradas dos amigos do marquez denuncion a Holmes que esses mesmos ha- viam sido victimas d’um engano, que foi preparado com o auxilio da mascara. Em seguida poz a capa, e saiu das catatumbas to- mando o caminho pelo qual tinha desapparecido o seu adversario depois do duello com os sabres. —Desconfiei da patifaria, disse Holmes para Har- ry, subindo os degraus de pedra que os levava para 0 ar livre. — Voltemos para o hotel e almocemos, disse o grande mestre para o seu discipulo. Chegando a casa, Holmes pediu o «Corrieri di Tri- bunale». Um artigo impresso com grossas lettras in- teressou-o de tal maneira que deixou arrefecer o al- mogo para se entregar inteiramente 4 leitura d’esse artigo. Havia dois dias que o jornal fallava do caso Ventura. Essa manb§ fallava largamente sobre a morte repentina e mysteriosa da condessa Ventura e tambem do incidente occorrido no baile em casa do principe Aliprandi. Por fim dizia: «Um leitor do nosso jornal diz-nos que os aconteci- mentos passados em casa do principe sio duplamente interessantes porque foram preditos pela velha Giovan- na. Os illustrados viram essa declaragdo, mas 0 leitor af- firma nos que elle mesmo ouviu essa prophecia da bocca de Giovanna. A velha Giovanna ja prophetisou muitas coisas que na verdade aconteceram. O que ha de verdadeiro n’esse caso, entregamol-o ao julgamengo do leitor». Sherlock Holmes deitou furioso o jornal em cima da mesa. —Sem esta sensagdo de que os jornalistas gostam, o nosso trabalho seria muito mais facil, disse elle para Harry. Ja ouviste fallar alguma vez d’essa velha Gio- vanna? —Nd§o, mestre. —Parece ser uma personagem muito conhecida. Em todo o caso devem os leitores d’esse jornal conhe- cel-a. <Chama 0 criado. 17 Harry, conforme o pedido do set mestre, chamou o eriado que appareceu immediatamente. -- Conhece a velha Giovanna? perguntou Sherlock Holmes. O criado fez uma cara mysteriosa, —Decerto, ella 6 notavel, é uma bruxa. Sherlock Holmes, riu:se, — —Ora! Ent&o aqui acreditam ainda em bruxas? —O senhor, ndo faga troca. Ha dez annos que es- ton em Napoles, n’este hotel. Ha tambem dez annos, que veiu para esta cidade a velha Giovanna, Parece-me que ainda hoje ninguem sabe quem ella é, como se chama e o que faz. Alugou nas proximidades do Bosco Trecase uma pequena casa, ninguem sabe com que di- nheiro. Ali mora ella ha ja dez annos, Para dizer a verdade, a casinha d’ella é uma das mais bonitas de Napoles. A vinha selvagem cresceu pelas paredes e envolveu-a completamente com a sua folhagem. Das janellas da casa vé-se directamente 0 cume do Vesuvio, Nao ha estrangeiro nenhum que passe deante da casa mysteriosa, da qual sé se veem os vidros turvos, que nao pergunte que casa é essa. Os guias nao gostam de passar por 14, os rapazes nunca vio brinear por ahi e todo o napolitano ao passar perto d’ella benze-se, Repito-lhe, senhor, ella é uma bruxa. Sherlock meditande, perguntou: —Mas isso deve ter um motivo. O facto so de a velha ter alugado essa casa e nao se dar com ninguem nfo é bastante para a classificarem de bruxa. —Oh senhor! ella mata todas as pessoas que se approximam d’ella. —O qué? Entao ja morreram pessoas em casa della? —Sim, senhor, tres. Desde ent&o ninguem mais se atreveu a ir a casa. della, S6 de vez em quando, alguem tem a coragem de a deixar dizer lhe a boa ventura. Essas pessoas deixa ella sair de casa. Mas quem lhe quer fazer mal, nunca mais apparece 4 luz do dia, ella mata-os sem se saber como. —O senhor esta fallando por enygmas, respondeu Sherlock Holmes. Mas se ella mata gente, decerto a podiam julgar e castigar. —Decerto. Mas a justiga teria de a absolver ou- tra vez, porque nio se pode provar que ella matou essa gente. «Conta se que uma vez um homem lhe exigia di- nheiro. Foi a casa d’ella e fallou-lhe durante algum tempo. Ella estava assentada 4 jamella, e nao se me- xia. Mais ninguem estava em casa. Ie repente o ho- mem apanhou uma paneada por detraz que o deitou ao chao, A bruxa foi muito tranquillamente ao posto de policia dizer para irem buscar o homem que fora accommettido d’uma apoplexia em casa d’ella. Nao se descobriu nada n’elle. Nem ferida. . nada... D’esta vez ninguem desconfiou de nada. Uma vez foi um agente da policia a casa d’ella para lhe exigir os pa- peis. Por fim zangou-se, ella deu-lhe um empurrdo que o fez cair no chao, perdendo os sentidos. De noite recuperando os sentidos teve a felicidade de se poder arrastar fora da casa. Desde entio est4 paralitico e nada o pode curar. O terceiro foi tambem um policia que apanhou uma pancada com uma forga extraordi- CONNIE DOO KS (C (E€@)