Penny Dreadfuls, 1911 · page 3 of 15
As Ruinas de Pompeya (The Ruins of Pompeii) — page 3: what you’re looking at
A restored page from Penny Dreadfuls, 1911. Page through the whole issue in the reader above.
📄 Transcribed text from this page (OCR, searchable)
Machine-transcribed from the original scan — historical spelling and the odd misread are preserved.
2 "As ruinas de Pompeia de Capri do mar azul, e as paredes brancas da villa de Tiberius reluziam como castellos legendarios dos tempos passados.. - Sherloch Holmes e Harry dirigiram-se para a pe- quena villa de Capri que estava situada n'uma peque- na encosta. O castello do conde Ventura ficava a tresentos me- tros da cidade no cume d’um pequeno monte, para o qual conduzia uma estrada larga. O edificio estava no meio d’um silencio absoluto. Algumas palmeiras parecendo sentinelas estavam 4 entrada. N’uma das aleas, no meio de tenra verdura, viam se luzir alzumas laranjas doiradas. Um guarda-portéo approximon-se de Sherlock Holmes quando este passava com Harry pelo jardim’ —Queira annanciar-me ao sr. conde, 0 meu nome é Sherluck Holmes, disse o policia. O guarda-portio affaston se, ouviu-se uma cam- painha, e antes que Holmes e Harry tivessem chegado 4 porta da casa, approximon-se d’elles apressadamente um homem alto, de modos distictos. Vestia sobrecasaca preta, o cabello e a barbaeram brancos e os olhos negros brilhavam. Cem a vivacidade italiana, estendeu as m&os ao policia. ; —Oh, sr. Holmes, como lhe hei de agradecer ter vindo aqui! Da-me licenga que mande vir uns re- frescos ? —Qbrigado, senhor conde, respondeu o policia com a tranquilidade habitual. Queria pedir-lhe para me explicar tudo o que diz respeito ao rapto de sua filha e de me mostrar o quarto que a joven senhora habitava antes de ter desapparecido d’uma.maneira tao enigmatica. —Da melhor vontade, senhor, exclamou o conde Ventura, e tomando a deanteira levou os seus dois hos- pedes pela larga escada de marmore para 0 primeiro — andar do castello. O interior da casa era no estylo italiano da renas- cenca, que liga 4 maior pompa o mais distincto gosto. Uma frescura agradavel jorrava sobre o pesado ta pete da persia que cobria a escada. Quando Sherlock Holmes subia o ultimo degrau appareceu-lhe uma senhora ja de certa edade, Trazia um vestido preto, o penteado era simples, e nos cabellos castanhos viam-se misturados muitos fios prateados; essa mulher devia tsr sido de uma grande belleza. O conde fez as suas apresentagdes: —Minha esposa—o sr. Sherlobk Holmes. E o policia ajuntou indicando Harry: —O meu fiel companheiro e ajudante. | A senhora levantou os olhos ainda brilhantes, mas que estavam agora cercados de vermelho para Sher- lock Holmes e disse com voz lamentosa: —Como sou feliz vendo o aqui! Os nossos policias sdo impotentes para desvendar este crime. Decerto, trata se outra vez d’ums d’essas partidas de Camorra, que talvez nos queira exigir um resgate. Damos de boa vontade tudo o que possuimos; 0 que queriamos era apertar nos bracos a nossa innocente e desgracada filha, Mas eu temo o peior. —Por isso mesmo, senhora condessa, é preciso aproveitar bem o nosso tempo e nao deixar a dean- teira aos Grimjnosos. Tenha coragem. Farei tudo 0 que estiver ao meu alcance para lhe entregar a sua filha. Da-me-licenea que veja o quarto da condessa Ada?’ O conde é a condessa passaram a um longo cor- redor, Todo o ruido dos passos morria nes espessos tapetes. A’ direita e 4 esquerda estavam collocadas armaduras antigas, viam-se penduradas algumas pin- turas dos tempos passados, Eram os avés da casa Ventura, que olhavam severamente da rigidez das suas molduras, ‘ ; O conde abriu uma porta e indicou um quarto mo- bilado d’uma maneira fabulosa, ao lado d’este eStava um quarto de dormir luxucso. "oe —Aqui estdo os aposentos de nossa filha, decla- rou elle. Sherlock Holmes entrou; encontrava-se no gabi- nete da condessa Ada, Ali estava tudo em ordem, mas no quarto de dormir ao contrario tudo demonstrava que a dona o tinha ha pouco deixado. —Nao deixdmos até agora entrar ninguem n’este quarto e demos tambem ordem de deixar tudo tal qual como est4, disse 0 conde Ventura, para dar oc- casido 4 policia de reconhecer 0 mais pequeno ves- tigio. Mas, tanto o commissario como tambem dois policias napolitanos que estiveram aqui ja declararam ser impossivel descobrir 0 caminho por onde se effe- ctuou o rapto de nossa filha. Sherlocu Holmes examinou o quarto com a mes- ma minucia com que fazia todas as suas investiga- gdes; mas tambem elle parecia nao ter uma sorte es- pecial, porque Harry o viu algumas vezes saccudir a eabega d’uma maneira indecisa. —Quando e como deram pela falta de sua filha, senhor conde? —F ui eu a primeira a suspeitar, respondeu a con- dessa. Ada nfo appareceu 4 mesa ao almogo. Como de costume era muito pontual e como quasi todos os dias dava um passeio 4s sete horas no jardim, temi que ella estivesse doente, fui ao seu quarto para ver 0 que se tinha passado, O seu gabinete estava fecha- do 4 chave por dentro, e nio ha outra entrada. Bati 4, porta, chamei a mas nio obtive resposta. Enta&o fui chamar meu marido. Elle arromboy a porta, mas 80 podemos constatar que Ada tinha desapparecido. —A porta estava fechada por dentro? perguntou Holmes outra vez. —Sim, senhor. —Nio poderd ter acontecido que a condessa, dando o seu passeio habitual no jardim, fosse raptada ali? —N4o, porque o jardineiro que estava trabalhan- do desde muito cedo a teria visto. O crime foi feito, sem duvida, durante a noite, porque a agua do lava- torio esta ainda intacta. —Ficariam as janellas abertas durante a noite? perguntou o policia. —Sim, Ada dormia sempre com as janeHas aber- tas. Mas no pateo estdo os ofes, O parapeito da ja- nella esta um pouco torto. Tambem se viam* umas no- doas de céra. —E’ estranho! murmurou Holmes. | [|[—iee he ee “a 4 ee ee ™ . <n As ruinas de Pompeia 3 O policia curvou-se e apanhou uma coisa que es- tava entre o painal e o sobrado. Era uma pequena cruz de perolas e diamantes. °,, ‘ A condessa apenas lhe lancow um olhar exclamou: —Oh! meu Deus. essa é a cruz que o prior de Santa Maria l’Incaronata deu de presente a Ada, Hra a unica joia que ella quasi sempre trazia! —Mettida n'um fio de perolas? pergunton o policia. —Isso mesmo, Mas como sabe o senhor isso? -. Holmes debrugou se fora da janella e indicou ums coisa branca no pateo. -—Vé ali dois pontos brancos? s4o perolas. A po- licianZo0 as viu. * Depois approximou-se d’um guarda-fato linda- mente esculpido e abrindo-o perguntou: —Quantos vestidos de manh& tinha a condessa Ada? —Tres, respondeu depressa a condessa Ventura. —Eu s6 vejo dois, retorquiu Holmes. Ja contou as outras toilettes para ver se falta alguma, senhora condessa? A velba senhora saccudiu negativamente a cabega. —N§o senhor. Ainda no me veio isso 4 ideia. — Peco lhe me diga se falta uma ou mais toilettes de sua filha, A condessa Ventura apressou-se a satisfazer o pe- dido de Holmes, emquanto o policia esquadrinhava o gabinete da condessa Ada. Ao pé d’este havia uma galeria onde estava installada a bibliotheca da joven senhora. —O vestido de soirée que a minha filha trazia hontem falta, disse a condessa Ventura quando o po- licia voltou. —Isso é de grande importancia. Vi no chido de marmore da galeria algumas gottas de sangue. Nin- guem ainda deu por isso, senhor conde? O-cende Ventura teve um sobresalto, a condessa empallideceu. —Sangue! murmurou ella e corren paraa galeria. So tres gottas de sangue disse o policia quando a condessa voltou. —Vi-as. Mas d’onde pdde isso vir? —A senhora condessa observou tambem que as tres gottas de sangue esta) a uma certa distancia uma da outra? —Sim, tera isso qualquer significacio? —Isso é conforme. Mas posso eu perguntar para onde d4 a porta no fim da galeria? —D’ali pode-se subir para a torre, respondeu o conde. E” preciso que saiba, sr, Holmes quue 0 nosso castello tem mais de 200 annos. Quando o herdei de meu pae mandei-o reconstruir. A torre entretanto dei- xel-a tal qual como estava. —Da torre decerto se péde descer por uma es- cada de caracol? perguntou Sherlock Holmes. —TExactamente, Dali desce-se para o mar. —No-seria possivel que a condessa Ada fésse ra- ptada porsesse caminho? ' O conde sorriu-se. —Isso é de todo impossivel, Tambem a policia me disse 0 mesmo. Lembre-se, sr. Holmes que a porta que d& para a torre nao pdde abrir-se. Nao existe GOMmMIIG chave nenhuma e eu mesmo nunca experimentei abrir essa porta. A escada de caracol d4 para o pateo do castello, e 6 preciso atravessal-o inteiramente antes de chegar ao mar. © pateo esté guardado por dois bul- dogs que a noite passada ndo ladraram. Teria ouvido o mais pequeno barulho porque tenho o somno muito leve. Sherlock Holmes voltou 4 galeria e empurrou a porta, mas nem o mais pequeno tremor denunciou que ella cedesse aos seus empuxdes. Elle recuou. Nos seus labios via-se um sorriso estranho. —Nao tem suspeita alguma d’uma pessoa das suas relacdes, senhor conde? O fidalgo encolheu os hombros. —N&o teria coragem para suspeitar de qualquer pessoa, sr. Holmes, Para lhe fallar francamente, dir- lhe-hei que seria uma injustig¢a para com os meus co- nhecidos alimentar semelhante ideia. —A nossa filha sé tinha relagdes com algumas amigas, interrompeu 4 condessa. A nossa filha saia muito pouco, e sé se mostrava publicamente quando ia comnosco a qualquer baile ou quando iamos ao thea- tro San Carlos a Napoles. Ada foi-se deitar hontem muito cedo... Queixou-se de déres de cabega, mas fora d’isso estava bem disposta. Sherlock Holmes continuou as suas investigacées. Finalmente, 0 conde Ventura, que tinha seguido com a maior attengao todos os passos do celebre po- licia, perguntou com ligeira impaciencia: —Entao, sr. Holmes, j4 encontrou um ponto de apoio? —Sim e nao, senhor conde. —Poderia dizer-me de que maneira entrou um es- tranho no quarto de minha filha? ‘ O policia saccudiu a cabeca. —lIsso nfo sei, senhor conde. A condessa comecou a chorar. —Oh! meu Deus, sempre temi isso! Assim desap- parece tambem a ultima esperanca que nos tinhamos em si, senhor Holmes! —Soube pelo chefe da policia que n'esta mesma noite foi assassinado nfo longe do seu castello um ho- mem, senhor conde, continuou Sherlock Holmes sem fazer 0 minimo movimento. —Exactamente, sr. Holmes. Mas isso n30 tem nada com este caso. — Como pédde o senhor affirmar isso? perguntou o policia deitando um olhar investigador ao conde Ven- tura. —Para onde levou a policia o cadaver d’esse ho- mem? —KEstad na casa mortuaria de Capri. —O cadaver ja foi reconhecido. Trata-so do barao Arnabaldi, um veneziano muito conhecido que gastou toda a sua fortuna dando cabo da sua saude. Talvez se tivesse envolvido n’alguma desordem, —Parece que nao via com bons olhos esse joven, observou Holmes pegando no chapeu. —Oh! isso é dizer de mais, mas confesso que elle nao tinha a minha sympathia. 5 : —Bom, ja sei tudo que me parece ser de impor- tancia, respondeu Sherlock Holmes, Despego-me para JOOKSEO <S