Penny Dreadfuls, 1911 · page 7 of 15
As Ruinas de Pompeya (The Ruins of Pompeii) — page 7: what you’re looking at
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10 ser um cobarde, impressionou-o essa apparigdo mys- teriosa de tal maneira que esteve incapaz durante uns momentos de resistir. Quando finalmente se lembrou de fazer uso da pistola era tarde de mais. O revolver do Romano bri- lhava & luz pallida. O homem mysterioso parecia uma estatua em cl- ma do cavallo preto; nem elle nem o animal se mexiam. O capit&o livido de vergonha e furia fez um mo- vimento para tirar a espada. A cara de Romano to- mou uma expressao horrivel, —Descer! ordenon elle pela segunda vez, ou, en- tio, capitio, é um homem perdido! Nao foi s6 a ameaga mas tambem a impressdo pes- soal e dominante que fizeram effeito tal sobre o capi- tio que elle sem mais hesitar fez o que o outro lhe or- denava. Havia uma coisa de dominativo n’este homem phantastico, que parecia nfo fazer parte da actuali- dade. O capacete cobria-lhe a alta testa. Por cima dos grandes olhos que fascinavam, arqueavam-se fortes so- brancelhas, por baixo do nariz adunco via-se um bi- gode escuro, Romano nao era de todo desconhecido ao capitao, apezar de estar hoje pela primeira vez defronte do homem terrivel. Ja tinha muitas vezes ouvido fallar delle. Estrangeiros que tiveram a coragem de visitar sem guia as ruinas de Pompeia, fallavam admirados, ouviam-se as risadas dos espiritos, que de noite, quando a luz da lua passava pelas ruas abandonadas de Pom- pela, passelavam., De vez em quando ouvia-se fallar d’um assassinio mysterioso, viajantes desappareceram para nunca mais voltarem A luz do dia, A policia recebia mais de um aviso sobre 0 mysterioso Romano. Pompeia e Hercula- num foram visitados minuciosamente pela policia mas nunca ninguem teve a sorte de ver Romano e ainda menos de o prender. i! agora impedia em pleno dia, o caminho ao chefe dos carabineiros! Rangendo os dentes estava este deante do caval- leiro esperando a sua sorte. De repente deu Romano um assobio agudo, cujo som fez afitar as orelhas do seu cavallo. Depois pas- sou-se um minuto, e de subito como se tivessem saido da terra, appareceram meia duzia de patifes atrevidos € approximaram-se do grupo. —Liguem o capitao! ordenou o cavalleiro, e imme- diatamente foi cumprida a ordem. —Ponham-no em cima do cavallo! ¢xclamou o ho- mem mysterioso. O capitdo foi entio puxado para cima do cavallo sentado de costas, ligado ao cavallo que se empinou e que sd a grande custo poude ser mantido, Entretanto tinha um dos do bando verificado a mala do capit3o e entregado com um grande grito de jubilo a enorme quantia ao Romano, Sem fazer qualquer mo- vimento de cara fez este desapparecer 0 mago de no- tas do banco debaixo da couraga. Isso foi tudo 0 que o capitéo péde ver, porque de repente retiraram-se os bandidos e um d’elles deu uma forte chicotada no cavallo, que se empinou e em se- guida comegou a correr doido, tomando o caminho que tinha percorrido de manh&; em pouco tempo chegou As ruinas de Pompeia a Napoles, Os habitantes nfo ficaram muito admira- dos ao verem o capitio dos carabineiros que de manh& ‘tinha feito tanta desordem ligado e deitado de costas em- cima do cavallo percorrendo as ruas a galope, Sd no meio da cidade foi possivel fazer parar o animal espantado. O chefe dos carabineiros foi tirado e levado para a policia onde contou a sua aventura. Uma hora depois galopava elle outra vez 4 frente d’um grupo de soldados armados, na direcgéo de Pom- pela, para prender custasse 0 que custasse o myste- rioso Romano. : Mas apesar de procurarem horas e horas nas rui- nas, no foi possivel encontrar nem um so dos bandi- dos. Parecia que o chio se tinha aberto para engulir esse bando mysterioso, CAPITULO III Uma festa animada Sherlock Holmes estava sentado no seu quarto do hotel, Tinha ficado de cama durante alguns dias de- vido 4 queda que déra na recife de Capri. Apezar de poder no ultimo momento por um movimento agil sal- tar para o mar, tinha rogado por uma pedra e feriu-se bastante gravemente na cabega. Estava portanto sentado, ainda muito pallido, no seu fanteuil fumando no cachimbo, O fumo azul for- mava nuvens extensas em volta d’elle fazendo desap- parecer todos os objectos que o rodeavam e a elle mesmo Os seus pensamentos o separavam do mundo, dando-lhe occasiao de se entregar completamente ao caso de que se occupaya. A entrada de Harry interrompeu o andamento dos seus pensamentos. —QO conde Ventura manda perguntar ao sr. Hol- mes, se estd disposto a recebel-o, disse elle approxi- mando se do mestre. O policia poz de lado uma pequena estatueta de bronze, apenas da grossura da sua mdo sobre o qual tinha repousado os seus olhares até agora, e disse: Manda-o entrar, Harry. Holmes langou ainda um olhar 4 estatueta, que re- presentava um guerreiro, que de certo tinha mais de dois mil annos. N isto bateram a4 porta e o conde Ven- tura entrou no quarto. —Pego-lhe para nao se incommodar, disse elle, vendo que Sherlock Holmes ia levantarse. Poupe-se! Decerto precisa ainda bastante repouso para melhorar por com- pieto. O conde sentou-se na cadeira que Harry lhe tinha offerecido e tirou as huvas, —Ja ouviu fallar do que succedeu ao capitdo Stellati? perguntou o conde. O policia fez um signal affirmativo. —N§&o se podia esperar outra coisa, senhor conde, porque tudo que fez o capit&o foi ao contrario. —Mas elle prendeu o homem que me extorquiu um milh3o de francos, respondeu o conde Ventura. th a * —— a aan I ani a ee ’ As ruinas de Pompeia aa Ret —Muito bem, 7 ag —KE se elle tivesse a sorte de levar 0 homem 4 cidade, decerto teriamos noticias sobre o logar onde se encontra minba filha. Se Ue ? —Sherlock Holmes sorriu:se. —Nio acredito isso, senhor conde. —Como? O homem que soube apanhar d’uma tal maneira o meu dinheiro decerto tambem raptou a mi- nha filha! Agora fugiu com os seus cumplices, e decerto nio se deixario apanhar. Holmes encolheu os hombres. -——Nao acredito que o artista que o capitdo pren- deu com tanto trabalho, fésse um grande criminoso. —Entao nfo o comprehendo, sr. Holmes. —Talvez ainda ndo ouvisse dizer que uma patru- Iha que passou esta manh& por Pompeia encontrou um homem completamente furado pelas balas? —Como, um novo assassinio? ~—-Sim, mas isso ndo é o mais estranho, O morto foi reconhecido como sendo o tal artista que o capitdo prendeu. : —Isso é incrivel. Sherlock Holmes sacudiu a cabega. —Ndo esperavamos isso. Ordenei 4 policia para fazer todo o possivel para apanhar o tal artista. Mas como foi impossivel encontrar qualquer vestigio d’elle, pensei logo que tinha acontecido qualquer coisa, A proposito, sr. conde, vae esta noite com sua esposa 4 festa de caridade que se realisa no palacio do principe Aliprandi? —QOh! meu Deus, isso dava nas vistas, sr. Holmes, ir com minha mulher a um divertimento publico depois da fatalidade que nos attingiu! «Mas foi justamente para fallar d’isso que vim aqui. —Ah! aconteceu qualquer coisa de novo? —Sim, mas nio quero avisar a policia d'isso. Se al- guem puder fazer qualquer coisa n’esse caso myste- rioso, sera o senhor; tambem comprehendo que nao de- vemos deixar desanimar minha mulher. Desde que de- sappareceu minha filha ella anda sempre melancholica; toca apenas nas comidas, nao diz palavra e chora sem parar. Hoje é o dia d’annos della, e fiaalmente con- segui convencel a a ir hoje commigo, 4 festa que, em summa, 6 uma obra de caridade, Ao menos distrahir- pos-hemos um pouco e passaremos umas horas durante as quaes no poderiamos fazer nada que pudesse ser- vir d’alguma coisa a nossa filha, —A senhora condessa decerto recebeu muitos pre- sentes, que distrahiram os seus pensamentos. —Sim! Nos temos tantos amigos e parentes que 0 corredor do nosso palacio parecia esta manha um jar- dim de flores. Minha mulher, na verdade, ja estava um pouco mais conformada e consolada pelas provas de sympathia e pelas palavras de compaixdo que lhe che- garam de todos os lados, quando de subito recebeu um presente que a poz fora de si. —Estou ancioso por saber, senhor conde, do que se trata. —Justamente quando minha mulher estava no ter- rago a olhar para o mar, triste e pensativa, appareceu um mogo trazendo-lhe um grande ramo de flores, no meio do qual estava um estojo e uma carta. ew coilm 11 «Com indifferenga ia por as coisas sem mesmo as abrir, ao pé dos outros presentes, qnando lhe deu na vista 0 monogramma do sobrescripto. «Ella estremeceu, porqne, imagine, sr, Holmes, que 0 sobrescripto estava fechado com uma caveira. «i lla nao presumindo coisa boa, abriu a carta e o estojo. Apenas tinha deitado um olhar sobre as duas coisas, desmaiou. Assim a encontrei quando a procurei no jardim, A carta dizia o seguinte: Senhora condessa! _ Como sei que festeja hoje o seu anniversario, per- mitta-me juntar aos presentes que deve ter recebido. dos seus amigos e amigas, uma pequena, mas inapre- ciavel lembranga Mando-lhe o annel de sua filha Ada e juntamente os parabens da joven e egualmente os meus. A condessa Ada sera minha esposa, Depois de ef- fectuado. o enlace, dar-me-hei a conhecer. Pelo meu presente pode reconhecer que ter4 um genro amavel e discreto, O desconhecido. O estojo continha na verdade um annel simples, que a condessa Ada tinha recebido ha annos d’uma amiga intima do convento, onde as duas foram edu- eadas, e do qual ella nunca se separava. Sabemos por- tanto quanto lhe era querida essa joia. —Tambem pdde imaginar, sr. Holmes, que prazer doloroso sentiu minha-mulher quando poz no dedo o annel que tinha sempre visto na m4o da sua querida filha. Sempre lhe digo, o criminoso, que fez a desgraca da minha casa, brinca cruelmente e sabe dar um golpe mortal mesmo de longe. Sherlock Holmes poz a cabeca entre as mdos e meditou. Parecia haver uma coisa que elle nio che- gava a comprehender, porque de vez em quando sa- cudia a cabega. —N4o chegou mais carta nenhuma na qual pediam dinheiro ? —N§o, sr. Holmes. —Entao, sr. conde, venha esta noite ao baile e traga sua esposa. Farei todo o possivel para a animar. A minha ferida impedia me de proseguir immediata- mente com toda a energia, como eu costumo fazer, o estranho e mysterioso caso. Mas a partir d’hoje o cri- minoso nio terd um minuto de repouso até termos a victoria do nosso lado. —O que diz, sr. Holmes, quer ir ao baile ? —Sim. Admira-se d’isso? —Mas o senhor esta ferido! —Isso nio é um obstaculo sr. conde. Irei com a cabega ferida para o baile. Naturalmente tratarei de me disfargar o melhor possivel para ndo ser reconhe- eldo. —Teme um golpe de violencia? —lIsso nio, Eu mesmo tenciono dar um. O conde Ventura olhou admirado para Holmes, —O senhor julga portanto que um dos criminosos desconhecidos ird a essa festa? Isso é de todosimpos- sivel ! —J4 devia ter visto que as possibilidades n’esta 6)(0)(6) <S (C com