Penny Dreadfuls, 1911 · page 8 of 15
As Ruinas de Pompeya (The Ruins of Pompeii) — page 8: what you’re looking at
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12 As ruinas de Pompeia casa tem poucos limites. Mas como me pergunta dire- ctamente, quero tambem responder-lhe directamente. Vou esperimentar esta noite descobrir a chave d’um enigma, que até agora esteve velado por um denso véu que os meus olhos ndo poderam ainda penetrar. N’este momento avistou o conde uma pequena fi- gura de bronze que Holmes tinha collocado em cima do parapeito da janella. —Ha tambem coisas que fallam, proseguiu Holmes. Nio sao sé as pessoas que fazem acordar suspeitas, que sio mysteriosas; ha tambem coisas que oos im- pressionam d’uma maneira estrapha. Uma impressio d’essas sentiu-a n’este momento o conde Ventura, Elle mirou durante mnito tempo o guerreiro que apenas media uns dez centimetros. —Se nado me engano, sr. Holmes, é isto uma es- tatueta muito antiga. ; —HExactamente, é antiquissima. —Como esta bem conservada essa pequena obra d’arte! Parece ter vida! —Encontrou a palavra propria, sr. conde. Essa pequena obra d’arte tem a sua linguagem. —-Nio o comprehendo, sr. Holmes! Holmes pegou na estatueta e voltou-a de maneira a apresentar a sua base ao conde. —Mas aqui ha um sello gravado, exclamou Ven- tura admirado. —Sim, uma caveira. O conde Ventura fez-se pallido. | —Uma eaveira? E’ ent&o o mesmo sello que mi- nha mulher recebeu hoje? —Sim. Encontrei esta estatueta, que representa um grande valor a cem passos do seu palacio. Nao fallei a ninguem do meu achado, porque finalmente so tem valor para mim. «Ja disse que esta pequena coisa tem a sua lin- guagem. Naturalmente é preciso comprehendel-a. Ve- Tifique, sr. conde, uma vez mais, minuciosamente 0 pé da figura. Elle ent&o examinou a de todos os lados. —Nao descubro nada, sr. Holmes. —Nio vé entio os signaes que estado feitos com um alfineteP —Sim, agora vejo. —Com o auxilio d’um mycroscopio foi-me facil de- cifral-o. Ha ali um dois e um zero, quer portanto di- zer vinte. Ao lado d’isso esta escripto, distinctamente, lendo de traz para deante, Aliprandi, O conde Ventura deu um pule. —O qué? Mas o senhor quer dizer... —Quero sémente dizer, respondeu o policia tran- quillamente, que os dois assassinos de que eu suspei- to, se correspondiam d’esta maneira. Como parece, el- les moram longe um do outro e nfo confiam a sua correspondencia a ninguem. E por isso aproveitam:se do sello ao qual elles confiam as suas noticias. Ku ex- plico isto da seguinte maneira: Hiles escrevem uma carta qualquer insignificante, fecham o sobrescripto e na sello tragam signaes combinados. O assassino a quem pertence essa figura, queria levar uma d’essas noticias e perdeu a figura. Mas apezar d’isso tenho a certeza de que elle encontrou outro meio para fazer chegar as suas-noticias 4 sua verdadeira direcgao. O que eu decifro d’essa noticia 6 0 seguinte: Encontrar- nos-hemos no dia vinte, em casa do Alipsandi, O conde absixando a voz disse: —Mas o sr. Holmes julga possivel que Aliprandi seja um criminoso ? ; © policia sorriu-se, —() senhor conde esquece que Aliprandi da esta noite um baile. O conde Ventura olhou admirado para Holmes mas nado lhe dirigiu mais perguntas. Levantou-se e. © despediu-se na certeza de que esse homem extranho chegaria ao seu fim. . —Até a vista, senhor conde, disse o policia. Des- culpe nfo o acompanhar. . Apenas tinha o conde saido péz-se Holmes a fazer a toilette. O baile em casa do principe Aliprandi estava bri- Ihantemente frequentado. O palacio estava situado n'um dos bairros mais aristocraticos de Napoles, em Corso Humberto. Deante do palacio carruagens e au- tomoveis chegavam constantemente. A sala estaya il- luminada com mil luzes electricas. N’uma entrada es- _tava installada uma musica militar italiana. Valsas animadas e outras pegas de musica soavam pela sala, e com admiracio olhavam as figuras penduradas nas paredes, para essa multidao animada. Entre os uni- formes brilhantes dos officiaes italianos luziam as toi- lettes cdr de rosa, brancas e azues das senhoras, cujos rostos animados pela danca estavam ruborisados. De vez ent quando via-se scintillar um diamante, e entre o barulho das vozes ouvia se um riso claro que se perdia pela porta aberta do jardim de inverno onde se apagava de todo entre as palmeiras. N’esse sitio fresco, que era animado por um repu- Xo, estava um cavalheiro alto e élegante, que obser- vava pela porta de vidro, aberta, a vida da sala. Nin- guem o podia vér, porque o3 olhares curiosos per- diam-se no meio da escuridao das palmeiras. O joven cavalheiro era uma apparigio extranha. Apezar de todos os italianos que estavara na festa te- o rosto mais escuro que os francezes e os allemies, que tambem alli estavam, fez-se esse homem ainda notar pelo seu rosto quasi bronzeado. A casaca era como uma luva no seu corpo elastico e entretanto pa- recia nao ser esse o vestuario habitual do homem que pertencia certamente a uma zona extranha. O cabello d’um préto azulado fazia uns caracoes em volta da testa. Mas o que attraia tmmediatamente todos os olhares era uma cadeia fina de oiro que elle tinha em volta da cabeca e que terminava por uma enorme pe- rola que pendia na testa chegando quasi ao nariz. Apenas tinha e mysterioso extranho largado o seu esconderijo e entrado na sala todos os olhares se vol- taram para elle. Os homens fallayam haixinho e tro- cavam impressdes, as mulheres examinavam-no com olhares ardentes. /m breve se soube aue o extranho era um principe indio, que estava de passagem em Napoles e que fora convidado pelo principe Aliprandi. O baile era em favor.d’ama povoagio muito pobre da Italia. A colheita tinha sido md&, e temiam-se a fome e a desordem; por isso teve 0 principe a nobre ideia de dar uma festa para por este meio auziliar essa desgragada povoacdo. renee N’uma segunda sala, defronte dos jardins das pal- meiras estavam installadas as tendas para a venda. Ali se viam as senhoras da mais alta aristocracia, ves- tidas com costumes de varias nacionalidades vender as suas mercadorias por um preco muito alto. O prin- cipe tinha habilmente ligado o bazar ao baile, e de- pois de ter passado a primeira sensag4o, depois de ter deixado quantias enormes nas tendas, dedicou-se tudo 4 danga, -Inutilmente procurayam os olhos do conde Ven- tura Sherlock Holmes, o afamado policia, — Parece-me que 0 policia/apreciou demasiadamente a sua forca, disse elle para sua mulher. Elle queria vir as baile, Eu tel-o-hia reconhecido sob qualquer disfarce, mas nio a vejo em parte alguma. A condessa olhava em volta d’ella com olhares fa- tigados. Tinha-se installado com seu marido n’um ca- marote d’onde podia observar a sala toda. Quantas vezes tinha ella vindo aqni em identicas occasides, se- guindo com prazer essa animagio onde de vez em gnando via sua querida filha quando ella voava‘no brago d’um cavalheiro, feliz e contente entre a multi- digo. Hoje devia ella regosijar-se da alegria doo estranhos! —UComego a perder todas as esperangas, disse ella com os labios muito pallidos. O. conde olhava-a com anciedade. —QO que tens, Francisca? Estds horrivelmente pal- lida. —Na§o sei. Sinto-me hoje mal. —Os teus olhos parecem maiores que de costume. Teem um brilho estranho. E os teus labios est&o li- vidos. Ella nZo respondeu, sd um sorriso triste e cansado passava pelo seu rosto, A alegria da sala tinha chegado ao seu apogeu. J4 passava da meia noite. N'uma valsa ardente voa- vam os pares pela sala. — N’um dos intervallos, viu-se outra vez a figura do principe indio passar pela sala e dirigir-se a uma se- nhora que até agora nfo tinha falhado a uma unica danga. Estava sentada n’um sofa estreito estylo im- perio. O sen rosto, de feicdes delicadas, estava verme- lho pela excitag#o e era animado por dois olhos vivos e negros. A m&ao branca como alabastro na qual so- bresaiam as veias movia vagarosamente um leque. Por. detraz d’ella estava o principe Aliprandi que fallava animadamente com ella. Deitou a linda cabega um pouco prra traz e sor- riu-se docemente para o principe. Nos seus olhos via-se um brilho fascinador, ao qual homem nenhum podia resistir. —N’este momento approximou-se o estranho. O principe cumprimentou o e 4pproximou-se delle. —Venho pedir a v. ex.* para me fazer o favor de me apresentar a sua esposa, disse o indio com accento doce e estrangeirado. A joven senhora observava-a com os grandes olhos perscrutadores, Um sorriso voluptuoso lhe passou pe- los labios. coi Ns ruinas de Pompeia 13 —C'om muito gosto, Alteza, respondeu o principe, é apresentonu: —Condessa Jessica—Rajah Crisma. A joven senhora abaixou com uma graga, difficil de imitar, a cabeca, emquanto o Indio se inclinava pro- fundamente. —Da me licenga de lhe pedir a proxima mazurka, condessar —Faca favor de escrever 0 seu nome no meu ear- net, Rajah. Ella deu ao indio o seu carnet onde este escreveu © seu nome com lettras muito direitas. O principe Aliprandi afaston se, porque tinham acabado de chegar uns convidados um pouco tardios que elle tinha de cumprimentar. O indio tomou o seu logar, Cada um dos seus movimentos era nobre, se- guro e tranyuillo. Todos os homens costumayam cur- var-se deante da influencia dos olhos da condessa, mas d’esta vez parecia ser o indio que fascinava a linda rapariga com o seu olhar, Cada observador po- dia constatar esse facto nos olhares da joven con- dessa. —Ha muito tempo que estd em Napoles, prin- cipe? perguuton ella fixando-o com os olhos ardentes. —Ha alguns dias, condessa. : —E agrada-lhe a nossa cidade e a nossa sociedade? —Agrada-me muito. «Viaje muito, mas é esta a primeira terra onde en- contro mulheres tio sympathicas como as filhas do celeste imperio, «Pela primeira vez se reflectem os meus olhos nos olhos aveludados que distinguem as mulheres in- dianas, «A senhora riu-se discretamente. —E’ estranho, principe, que mega a belleza e o valor d’'um paiz pelas suas mulheres! Um Allemdo decerto teria faliado da nossa armada, um Inglez dos nossos cavallos, Mas o senhor lembra-se logo das nos- sas mulheres. Um sorriso passou pelo rosto distincto do principe. —Admira-se d’isso, condessa? A belleza, a forga e o orgulho d’um paiz esté nos olhos das mulheres. A musica comegou, O principe offereceu galante- mente o brago 4 sua dama, e um minuto depois mis- turaram-se os dois entre os outros pares, dangando. Ninguem deu por um incidente que se passou en- tretanto n’um dos camarotes. Ali tinha-se a condessa Ventura levantado e dito a seu marido: —Vamos para casa, Luigi, nio me sinto nada bem, —Como tu queiras, Francisca, 0 teu rosto faz-me medo, estds tao pallida, nfo seria melhor ir chamar um medico? Ella tinha-se levantado e queria sair do camarote quando de repente cambaleou. O conde tomou a sua mio. Estava fria como gelo. Todo o sangue lhe fugiu do rosto, Ella queria fallar, mas parecia no ter forcas para o fazer. E Subitamente procurava apoio, o conde recebeu a os bracos. Ebooks co